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maio 7, 2006
Ficção Natural: fatum.
Alan Moore é assim como uma espécie de Tony Kushner da banda desenhada. A sua extraordinária capacidade de envolver o leitor numa teia de ideias originais, onde numerosos elementos da nossa cultura e fantasia desenham cenários fascinantes e fenómenos sociais fáceis de entender, faz com que ele, o leitor, quase se impacienta de não ver passar um "herói" alado pela janela de 25o andar do seu apartamento em Manhattan. Moore consegue colocar em relevo o que de mais atraente existe na Ficção Científica: o formidável que se transforma em plausível.
Este escritor é também capaz de reunir com humor os quatro cantos das nossas mais remotas memórias etnográficas, integrando o jazz com o clássico, o comunista com o fascista, a cultura pop com a erudita, e por aí fora. Como resultado, equacionamos muitas variáveis em simultâneo e, embora cheguemos a conclusões bem pouco distantes das que encontramos ao ruminar sobre a "vida real", consolamo-nos com ideias de utopia, com as surpresas que o futuro poderá trazer. Esta capacidade de escrever acerca de tudo surpreende mesmo os mais snobes pirrónicos desta forma de arte. Por exemplo, na saga Watchmen, Moore brica com a suposição de que o que o Ocidente assistiu durante a Guerra Fria ocorreu de modo completamente independente do conhecimento científico que a humanidade tinha ou pudesse ter tido. As diversas acções que ocorrem em paralelo (e ainda outras que decorrem em livros de banda desenhada que os próprios personagens vão lendo) são intercaladas com textos de ficção que complementam o que o desenho não é capaz de transmitir. Até textos de carácter ornitológico podem ser reescritos com acrescida beleza neste quadro futurista (Maradona? Por onde andas? Píu, píu,píu!).
Alan Moore foi recentemente anunciado ao "público global" através da conversão para o cinema de um dos seus textos mais premiados: V for Vendetta. Para a (esperada) infelicidade de ver grande parte da mensagem original ser "mastigada", "digerida" e "arredondada" sobre os grandes ecrãs do mundo, apenas encontrei refrigério na figura da Natalie Portman e na homenagem a Alexandre Dumas. Nem um nem outro se encontram no texto de Moore, cuja reflexão sonda as profundezas do terrorismo de estado, da luta de classes e de uma visão niilista da História. No campo científico "V" é provavelmente a narrativa com menor elaboração, embora contenha um aviso pouco novo mas continuamente caído no olvido:

Publicado por VB às maio 7, 2006 12:35 AM